Conheci o Edson em Santos, em fevereiro deste ano na minha árdua campanha de divulgação do site. Acabamos encontrando muita coisa em comum, da decisão de melhorar a qualidade de vida aos perrengues na água na natação. Mas a gana do cara em crescer no triathlon impressiona. E não podia ser diferente, acabou numa bela performance no 70.3 de Penha – SC. E como homenagem ao amigo, reproduzo aqui seu relato do final de semana da prova. Parabéns Edson, e a vaga para o mundial na Flórida é questão de tempo. Audaces Fortuna Juvat – O destino ajuda aos audaciosos.
Quinta-feira – 27.08.2009
Saí do trabalho por volta das 19:30. Minha passagem era algo meio louco, pois eu teria de dormir em São Paulo e viajar para Navegantes no dia seguinte. Chegando a Sampa, não tinha um hotel reservado e pude perceber que todos os hotéis razoáveis da região estavam lotados sabe-lá-Deus-porque. Com receio dos engarrafamentos, acabei dormindo em um “hotel” do outro lado da Washington Luís, pois só precisaria atravessar a passarela e nada me faria perder o vôo no dia seguinte.
Seria uma noite de sono tranquila. Seria. Apesar de ter colocado meu nome no despertador, colocado o relógio de pulso e o celular para despertar, eu acordava de hora em hora com medo de perder o avião. Deveria estar no aeroporto às 7:15. Enquanto isso ia tirando uns cochilos.
Sexta-Feira – 28.08.2009
7 horas da manhã. Cheguei a Congonhas e constatei que o aeroporto estava fechado por causa da neblina. Lá pelas 8:30 o aeroporto voltou a funcionar, mas havia outro probleminha: Navegantes (meu destino) TAMBÉM estava fechado por causa de Neblina. Não era possível! Organizei tudo para chegar a Navegantes antes das 10 da manhã e uma maldita neblina poderia atrapalhar tudo! Sem problemas, daqui a pouco abre o tempo e vai ficar tudo certo.
Comecei a ver outras pessoas com capacetes e rodas pelo aeroporto. Até que veio a notícia que Navegantes voltara a operar e poderíamos embarcar. Por volta das 11 horas entrei no avião. Esperamos até 11:40 para decolarmos, porque algum “gênio” despachou a bagagem e resolveu não viajar. “Senhores passageiros, de acordo com os procedimentos de segurança, devemos localizar a bagagem deste passageiro e retirá-la do avião. Obrigado pela compreensão”. Só o que me faltava. Ou algum retardado havia feito isso ou resolveram botar uma bomba justo no meu avião. Pelo sim pelo não, que retirem logo a bagagem e deixem a gente voar.
Cheguei a Navegantes por volta de 13 horas e liguei para o Cristian (grande amigo, triatleta e mecânico de bikes) e para o Rodrigo Pereira (meu treinador). Eles haviam ido na quarta de carro e já estavam por lá. Foram me buscar no aeroporto e seguimos até a pousada. Deixei as coisas e fui direto para a Expo, também conhecida como feirinha. Confesso que não achei nada demais. Porém, peguei meu número, as sacolas, encontrei alguns conhecidos e voltei para a pousada. Precisava organizar tudo, pois o check-in da bike seria no sábado.
No check-in tudo parecia muito organizado. Havia até uma tenda para manutenção de bikes, caso alguém precisasse. As pessoas também eram muito gentis. Quanto ao staff da prova, não tenho qualquer reclamação. Deixei lá a bike com mais duas sacolas e voltamos à pousada. Comecei a arrumar as coisas para o dia seguinte. Toda a comida estava organizada em uma sacolinha: Gel de carboidrato, rapadura, BCAA, L-Glutamina, Pílulas de Sal, Whey Bar, enfim, uma grande refeição. A área de transição abriria às 7:10 do sábado e eu queria estar lá bem cedo.
Sábado – 29.08.2009
Acordei ansioso pela prova. A área de transição abriria às 7:15 e fecharia às 9 e eu queria sair cedo do hotel. Cristian e Rodrigo, já mais experiente diziam para eu ficar tranquilo, mas eu não conseguia. Saímos do hotel umas 8:15 e nos dirigimos ao local da prova. Quando estávamos perto um engarrafamento. Não aguentei: “Porra, não venho mais com vocês para transição em prova nenhuma!! Estão vendo só? Estão vendo isso?” Eles me pediram calma mais uma vez e eu insistia: “Tenho que arrumar minhas coisas! Não vai dar tempo! NÃO VAI DAR TEMPO!!!!”.
Chegamos à área de transição umas 8:40. Cristian rapidamente me ajudou a arrumar as coisas na bike e disse:”Tá vendo? Não disse que era rápido?”. Já estava um pouco menos tenso. Até que coloquei a roupa de borracha e fui aquecer. Enquanto rodava os braços na água gelada pensava: não sei se isso é loucura, benção ou os dois.
A prova
“Atenção senhores, a temperatura da água está agradável, por volta de 19, 20 graus…” dizia o narrador. Desde quando 19 graus é agradável? Quando pensei isso um sinal. Começara a prova. Começa o Ironman 70.3.
Natação – 1.9km
Comecei com cuidado para não apanhar muito. Sobram muitos braços e pernas nessa etapa da prova e tomar um chute na cabeça não é nada agradável. Passei pela primeira bóia (300 m) e na segunda (600 m) já estava bem mais tranquilo. Toda hora um sujeito com uma roupa da Orca 3.8 me esbarrava. Que raiva desse cara. Comecei a forçar a braçada para me livrar do sujeito, mas nao adiantava. Eu nadava mais rápido, ele também. Foi bom porque acabou me distraindo durante os 38 minutos de natação. Aliás, péssima natação, mas fiz o melhor que pude. Saí da água em 281 (eram uns 600). Faz parte.
Bike – 90 km
Comecei a pedalar com vontade. Por volta do km 30 dores lombares. “Ô cérebro, avisa pra galera aí de baixo que eu não vou parar, viu?” Melhorou. Comecei a pensar na vida, nos amigos, no meu falecido pai, na família, enquanto ia passando um ou outro. Chorei um pouco. Não sabia se agradecia a Deus por ter me dado uma saúde perfeita ou a São Jorge por ser um guerreiro e ter força interior e mental. Na dúvida fiz os dois. No percurso de 3 voltas, havia uma bela subida. Escalava com fúria cada centímetro dela. E depois, obviamente uma descida sensacional. Aos que me já me viram pedalando, sabem que eu adoro uma descida. Enquanto alguns a utilizavam para descansar, eu descia o pé e gritava para saírem da minha frente. Olhava o cateye torcendo para chegar a 70 km/h. Foi quase. Na segunda volta eu vinha disputando posição com um cara até que ouvi um estouro. Pensei: “por favor, que não seja o meu”. Então vi o sujeito ficando para trás com o pneu furado. Depois um cachorro enlouquecido cruzava a estrada. E as pessoas gritavam: cachorro, cachorro! Foi engraçado, mas tive pena do bicho. Na volta seguinte ele estava lá ganindo. A organização colocou o bicho amarrado numa coleira e ele parecia querer acompanhar a galera de bike. Encontrei na minha segunda volta o “valente” Bruno Reis na bike. estudamos juntos no Colégio Naval e o cara tava lá também, castigado pelo sol. Algumas palavras de incentivo e segui em frente. Por todo o percurso crianças pediam: “Garrafinha, garrafinha”. Queriam as caramanholas que a gente ganhava com água e gatorade e ia despachando pelo caminho. Procurei dar as minhas aos mais novinhos. Por alguns momentos achei chato aquela molecada gritando, mas lembrei do meu afilhado e via a alegria deles ao ganhar uma simples garrafinha… Aliás, meu São Jorge e a foto do meu afilhado foram presas à bicicleta. E o vento? Até agora não entendi como pode ventar contra para os dois lados. Se alguém souber explicar, peço ajuda aos universitários.
2:45 minutos depois entregava a minha bike e começaria a corrida.
Corrida – Meia maratona – 21 km
Saí para correr e as pernas não obedeciam direito. Era por volta de 13 horas quando comecei a correr. Como diz um amigo meu, “O sol não é clemente”. Eram duas voltas de 10,5 km e a galera incentivava muito os participantes. Aos 5 km pensei: “Nego tá de sacanagem em botar uma subida aqui né??” Não. Botaram mesmo. No começo da primeira volta o Felipe, outro amigo meu, passou por mim e disse “vamos lá cara!!”. Acho que isso é uma das coisas mais bacanas no triathlon. As pessoas conversam, os amigos se incentivam, é legal mesmo. Em seguida passei pelo Rodrigo (ele já estava no sentido contrário) e disse: “Isso aí, moleque! Corre com o coração”. Era exatamente o que eu fazia. tava correndo com o coração e com a cabeça. Não podia e nem devia me preocupar com as pernas. No final da primeira volta um coroa veio correndo do meu lado. Parecia bem experiente de triathlon e me disse: “É, companheiro… O dia hoje tá daqueles não? Água fria, vento no ciclismo e esse puta sol na nossa cabeça”. Dei uma risada e concordei. Partimos para a segunda volta. Pedi mais sal à organização (isso mesmo, a gente perde tanto sal que tem de comer sal algumas vezes). E assim fui correndo. Quando faltavam 2 km para a chegada um sujeito me passou e abriu 200 metros. Tinha um “C” na perna dele, o que significava que ele era da minha categoria (masculino 30-34). Quando faltavam 400 metros para o final, notei que ele “quebrou” e resolvi dar um sprint para passá-lo. Consegui chegar na frente dele, o que não o deixou muito contente. Havia acabao de cruzar o portal e não acreditava: 5 horas, 12 minutos e 20 segundos.
Agora a boa noitícia: depois disso tudo tem massagem e comida à vontade! Hahahahahaha. Cheguei ao hotel exausto, mas muito feliz!